Vai entender essas de se Deus existe ou não, se intuição é da mente ou do espírito, se o futuro só pertence a sorte. Tentando desvendar isso já quase fiquei louco. Melhor é deixar as coisas como são e viver. Quase no Paraná o ônibus parou nesses postos que tem restaurante, o motorista anunciou trinta minutos de descanso para "janta". Já era duas horas ou mais. Fiquei dentro do ônibus olhando pela janela. Eles iam ficar muito contentes com minha volta. Preferi não avisar ninguém e chegar de surpresa. Você é um cara surpreendente era uma frase que muito ouvia, mesmo quando não era num bom momento. Ia direto pra casa do meu pai. Não sabia que andava acontecendo por lá. A única coisa que eu sabia é que minha mãe tinha vendido a casa de Torres. Um cara no banco mais a frente conversava sozinho, baixinho, mas dava pra saber que também tinha lá seus perrengues, eu só conseguia ouvir a expressão de interrogação no final das frases. Eu queria mesmo era sumir de vez, ir pra outro país. Mas eu não era igual meus amigos de Torres que tinham dinheiro suficiente, ou pais com dinheiro suficiente pra isso. Um deles eu sabia que tinha ido pra Nova Zelândia, outro pra Nova Iorque, outros mais acomodados estavam por lá ainda, gastando o dinheiro dos pais com maconha, festas, cocaína. Mas o que mais eles conseguiriam almejar numa cidade dominada por gente hipócrita? Onde os mais egocêntricos tinha ódio de gente egocêntrica, os mais respeitados batiam na própria mãe e os menos admirados trabalhavam duro e nunca eram lembrados. Todos aqueles que mostravam ter um futuro promissor e que podiam fazer algo pra mudar sua própria vida entregavam-se ao luxo da procrastinação. Por fim, que culpa tinham esses? Somos resultado de nossas escolhas mas também fruto de nossos traumas e medos. Ninguém pode julgar isso. Nesse mundo todos somos produto do meio. Meu próprio avô, que disse isso, se mostrava uma pessoa tão espiritualizada e desenvolvida, mas anos mais tarde mostrou-me que a hipocrisia era generalizada, todo o amor pregado não foi suficiente para deixar meu cachorro pousar dentro do pátio da casa dele, o que no dia seguinte fez disso um dos dias mais triste da inha vida, até hoje eu lembro daqueles olhinhos escondidos no meio do pêlo preto, quase choro por nunca mais tê-lo visto. Meus tios mais apedrejados seriam anos mais tarde os que mais iriam me apoiar, e mesmo assim sempre mal falados pelos senhores da hipocrisia. Espero que meu avô não leia nunca isso, evitei ter que lhe falar isso pessoalmente por que quero guardar dele somente as boas lembranças de quando eu era criança e ele fazia meu mundo melhor. Enfim estava passando a ponte que separa o estado de Santa Catarina com o do Rio Grande do Sul. Foi dali que eu parti para essa longa viagem, onde eu peguei a primeira carona com o José, caminhoneiro muito gente boa que além de me levar até próximo ao Rio de Janeiro, conseguiu que o parceiro de viagem dele, que ia em outro caminhão, me levasse até dentro da cidade do Rio. Preferi nem olhar pela janela, estava mesmo do lado esquerdo do ônibus. Acordei só próximo a Porto Alegre e o dia já ia amanhecer. Eu só lembrava dos olhos do Gerson, da fala mansa do Geison, a carinha de dúvida do Gabriel, a gargalhada da Lilian, a cara de abobado do Emanuel no fim de cada piada, a preocupação constante, fruto de um dom a superproteção da Liliane, o lindo sorriso do meu pai e o rosto da minha mãe. Só queria agora estar lá e amar eles. Contar tudo o que se passou e prometer não arredar o pé de lá por um longo tempo. Nem que eu quisesse, poderia sair e rodar o mundo de novo. Onde ia arranjar coragem pra isso? Pensei que eu era mesmo um inconsequente e que o que se passou foi fruto de uma mente imatura e desorientada. Eu não sabia nem mais o que pensar, já não sabia nem se eu era um herói que merecia um pódium ao fim da corrida, ou se era mesmo um doido que merecia uma surra de correção. O que eu queria mesmo era uma boa cama, dormir e acordar como se fosse de um sonho louco de um adolescente que acordou adulto. Liguei pro Gerson, era o único número que eu nunca esquecia. Era pra ele que eu sempre ligava e ficava horas, ou minutos, ou sei lá quanto tempo pendurado ao telefone mandando notícias e trocando palavas de amor e conforto. Claro que liguei a cobrar, ele desligou, mas logo recebi uma ligação da casa do meu pai. Era a Kelly. "Em Porto Alegre hein!?". Sim, eu estava de volta avisei que estava chegando. Em frente a casa, notei que meu pai estava esperando na janela, ele saiu e veio ao meu encontro. Olho vermelho, leve nó na goela ele disse: "Psiu, tua mãe, tuas irmãs e a Vitória estão aí. Tão ali no quarto, vamos fazer uma surpresa. Eu disse que ia conversar com alguém importante ali na sala e era pra elas irem pra lá". Estou no meio da sala e a porta do quarto que dava de frente pra sala ele foi abrir, elas me viram e gritaram. AAhh, correram pra cima de mim, me abraçaram e me beijaram muito. Foi um dos dias mais emocionante que me lembro. Hoje eu penso em tudo o que houve e parece que não cabe tudo na mesma vida. Depois de tudo que se passou, hoje saltar de paraquedas não é mais um sonho, é realidade, minha mãe não está mais aqui pra ler isso, nem meu pai, ainda não tenho filhos, ainda não estou rico, ainda não fui morar em outro país. Quem sabe o que vai acontecer? Ninguém. O que podemos fazer é simplesmente estar disposto a escrever nossa história com a nossa própria letra. E o futuro... ah o futuro. Está lá, e hoje eu quero viver como o primeiro dia do resto da minha vida.
*Esse conto é em memória de minha mãe e de meu pai.
Amélia Coelho Lima e Neri Machado de Lima.
O cruzeiro do sul XIII - O primeiro dia
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